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Regeneração de Cartilagem sem Cirurgia: Como Funcionam as Terapias Condroindutoras

há 45 minutos
6 min de leitura

Por que a cartilagem é o tecido que não cicatriza

A cartilagem articular é a camada lisa e vítrea que reveste as extremidades dos ossos dentro de uma articulação. Ela permite que joelho, quadril e ombro deslizem quase sem atrito e absorve cargas que, durante a corrida ou o salto, podem chegar a várias vezes o peso do corpo. É também um dos poucos tecidos do corpo humano praticamente sem capacidade de se reparar.

A razão é estrutural. A cartilagem hialina não tem vasos sanguíneos, nervos nem drenagem linfática. Suas células — os condrócitos — ficam isoladas dentro de uma matriz densa de colágeno tipo II e proteoglicanos, recebem nutrientes apenas por difusão a partir do líquido sinovial e raramente se dividem no adulto. Quando a superfície é lesada por trauma, por carga repetitiva ou pela degeneração lenta da osteoartrite, não há sangramento, não há arcabouço inflamatório e não há suprimento de células progenitoras para reconstruir o tecido perdido. O defeito permanece e, com o tempo, aumenta.

Lesões de cartilagem estão longe de ser raras. Lesões condrais focais já foram relatadas em até 63% da população geral e em 36% dos atletas submetidos a artroscopia do joelho, e a osteoartrite está entre as principais causas de incapacidade no mundo. Para um paciente na faixa dos 40 ou 50 anos com um defeito de cartilagem sintomático, as opções atuais representam um difícil equilíbrio entre controle de sintomas e cirurgia invasiva.

O que a cirurgia pode e não pode fazer hoje

Os cirurgiões ortopedistas dispõem de um conjunto maduro de técnicas para defeitos condrais focais, e a escolha depende do tamanho e da localização da lesão e do envolvimento ou não do osso subjacente. Lesões pequenas costumam ser tratadas com estimulação da medula óssea (microfraturas), que cria canais até a medula para que sangue e células medulares preencham o defeito. Lesões médias e grandes podem receber transplante osteocondral autólogo ou homólogo, ou procedimentos baseados em células, como o implante autólogo de condrócitos induzido por matriz (MACI), em que os condrócitos do próprio paciente são expandidos em laboratório e implantados em uma segunda operação. Uma revisão de 2021 publicada na revista Cartilage — com coautoria do fundador da Spero Science, Prof. Dr. Tiago Lazzaretti Fernandes, ao lado de cirurgiões de cartilagem de Stanford, do Brigham and Women's Hospital, do Hospital for Special Surgery e de outros centros — organiza esses procedimentos clássicos e novos em um algoritmo de tratamento baseado no tamanho e na localização da lesão e no envolvimento do osso subcondral.

Essas técnicas funcionam, mas compartilham as mesmas limitações. Exigem uma operação, muitas vezes duas. A estimulação da medula tende a produzir fibrocartilagem, um tecido semelhante a cicatriz, mecanicamente mais fraco que a cartilagem hialina original e que pode se deteriorar após alguns anos. Os implantes baseados em células são caros, logisticamente complexos e dependem de uma infraestrutura de fabricação de células que poucos países possuem. E nenhuma dessas opções trata a perda difusa e progressiva de cartilagem da osteoartrite, em que não há um único defeito a preencher.

Para a osteoartrite em si, o tratamento continua essencialmente sintomático: fisioterapia, controle de peso, analgésicos, corticosteroides ou ácido hialurônico intra-articulares e, por fim, a artroplastia. Ainda não existe terapia aprovada que regenere a cartilagem ou modifique de forma confiável o curso da doença.

Condroindução: ensinar a articulação a reconstruir cartilagem

"Condroindução" descreve o processo de estimular células a se tornarem células formadoras de cartilagem — condrócitos — e a produzir matriz cartilaginosa. É o equivalente, para a cartilagem, da osteoindução que os biólogos do osso exploram há décadas com fatores de crescimento como as BMPs.

A articulação não é desprovida de potencial de reparo. A membrana sinovial que reveste a cápsula articular contém células estromais mesenquimais (CEMs) com forte tendência intrínseca à diferenciação condrogênica; o mesmo vale para a medula óssea sob a cartilagem e para o coxim adiposo dentro do joelho. Essas células já estão lá. O que lhes falta é o sinal certo e o ambiente certo. Deixadas por conta própria, respondem à lesão produzindo tecido fibroso, e não cartilagem hialina.

Uma terapia condroindutora busca fornecer esse sinal ausente diretamente dentro da articulação. O conceito é uma formulação injetável que recruta células progenitoras endógenas, direciona-as para a linhagem condrocítica e sustenta a deposição de uma matriz rica em colágeno tipo II — sem coletar células do paciente, sem expansão em laboratório e sem abrir a articulação. Aplicada por uma simples injeção intra-articular em ambiente ambulatorial, poderia ser repetida, combinada com reabilitação e usada mais cedo na doença, quando a perda de cartilagem ainda é limitada e o custo biológico da regeneração é o menor possível.

Essa é a lógica por trás da Molécula Condroindutora, principal plataforma terapêutica da Spero Science Innovation: uma terapia condroindutora injetável desenvolvida para estimular o reparo da cartilagem e tratar a osteoartrite e as lesões focais sem cirurgia.

De onde vem a ciência

A Spero Science foi fundada por cirurgiões-cientistas ortopedistas da Universidade de São Paulo, e a plataforma se apoia em mais de uma década de pesquisa em cartilagem publicada por seus fundadores.

O grupo desenvolveu e validou um modelo em animal de grande porte para testar terapias de cartilagem, usando o miniporco brasileiro com defeitos condrais de espessura total no joelho, publicado na Stem Cell Reviews and Reports em 2018. Desde então, esse modelo tem sido usado para comparar abordagens de engenharia de tecidos em condições de Boas Práticas de Fabricação (GMP). Em um estudo pré-clínico de 2024 na Pharmaceutics, construtos de engenharia de tecidos sem arcabouço, produzidos a partir de células estromais sinoviais, resultaram em cobertura e qualidade de cartilagem significativamente melhores do que defeitos não tratados após seis meses, com escores de ressonância magnética (MOCART) e histológicos (ICRS-2) que se aproximaram dos da cartilagem nativa no mapeamento T2.

A mesma equipe liderou, em 2024, uma revisão sistemática e metanálise no Journal of Orthopaedic Translation de 25 ensaios clínicos randomizados (1.048 participantes) sobre terapia avançada com células estromais mesenquimais para osteoartrite do joelho. O estudo encontrou escores de dor mais baixos aos 12 meses em comparação com a viscossuplementação e nenhuma diferença em eventos adversos graves — deixando claro, com honestidade, que a certeza da evidência ainda é limitada e que são necessários ensaios mais bem desenhados. Essa combinação de entusiasmo pela biologia regenerativa com rigor em relação à evidência é a cultura sobre a qual a Spero Science foi construída.

A lição desse conjunto de trabalhos é clara: as células que já vivem na articulação podem reconstruir cartilagem se forem orientadas adequadamente. A Molécula Condroindutora é a tentativa de transformar essa orientação em um produto que não exige uma unidade de fabricação de células nem um centro cirúrgico.

Estágio de desenvolvimento e caminho regulatório

A Molécula Condroindutora está em desenvolvimento pré-clínico e translacional. O programa segue a sequência padrão para um produto regenerativo injetável: formulação e caracterização, ensaios de potência condrogênica in vitro, estudos de eficácia e segurança em animal de grande porte e preparação do dossiê regulatório. No Brasil, o caminho passa pela ANVISA, a agência reguladora nacional; o programa foi desenhado desde o início para que o mesmo pacote de dados possa sustentar submissões em outras jurisdições.

A Spero Science desenvolve essa plataforma dentro do ecossistema translacional de São Paulo — Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), Hospital das Clínicas HC-FMUSP, Hospital Sírio-Libanês — e com parceiros institucionais que incluem FAPESP, EMBRAPII, InovaHC e Eretz.bio.

O que isso significaria para pacientes — e para parceiros

Para os pacientes, uma injeção condroindutora mudaria o momento em que o reparo da cartilagem se torna possível: mais cedo, com menor custo e com muito menos risco do que a cirurgia, e aplicável à osteoartrite, e não apenas a defeitos isolados. Para os sistemas de saúde, levaria o reparo da cartilagem do centro cirúrgico para o ambulatório.

Para investidores e parceiros da indústria, a plataforma está na interseção de duas grandes necessidades não atendidas — osteoartrite e lesões condrais focais — com uma equipe fundadora que já publicou os modelos pré-clínicos, a evidência sobre terapia celular e os algoritmos cirúrgicos que definem a área. A Spero Science está aberta a conversas sobre codesenvolvimento, licenciamento e investimento nessa plataforma.

Referências

  • Hinckel BB, Thomas D, Vellios EE, Hancock KJ, Calcei JG, Sherman SL, Eliasberg CD, Fernandes TL, Farr J, Lattermann C, Gomoll AH. Algorithm for Treatment of Focal Cartilage Defects of the Knee: Classic and New Procedures. Cartilage. 2021;13(1_suppl):473S-495S. https://doi.org/10.1177/1947603521993219

  • Fernandes TL, Shimomura K, Asperti A, et al. Development of a Novel Large Animal Model to Evaluate Human Dental Pulp Stem Cells for Articular Cartilage Treatment. Stem Cell Rev Rep. 2018;14(5):734-743. https://doi.org/10.1007/s12015-018-9820-2

  • Fernandes TL, Santanna JPC, de Faria RR, Pastore ER, Bueno DF, Hernandez AJ. Tissue Engineering Construct for Articular Cartilage Restoration with Stromal Cells from Synovium vs. Dental Pulp — A Pre-Clinical Study. Pharmaceutics. 2024;16(12):1558. https://doi.org/10.3390/pharmaceutics16121558

  • Tabet CG, Pacheco RL, Martimbianco ALC, Riera R, Hernandez AJ, Bueno DF, Fernandes TL. Advanced therapy with mesenchymal stromal cells for knee osteoarthritis: Systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. J Orthop Translat. 2024;48:176-189. https://doi.org/10.1016/j.jot.2024.07.012

  • Fernandes TL, Bueno DF, Shimomura K, Shao Z, Gomoll AH. Editorial: Tissue Engineering and Cell Therapy for Cartilage Restoration. Front Cell Dev Biol. 2022;10:947588. https://doi.org/10.3389/fcell.2022.947588

 
 
 

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